Chico Buarque – Uma Carreira Literária

Atualizado: 22 de Jan de 2020



Se você é daqueles que desconfia quando alguém muito bem-sucedido se arrisca em outra área, ou, no caso, da arte, uma ramificação dela. Pode pensar mal de Chico Buarque ou duvidar de sua capacidade como escritor. Do meu ponto de vista Chico até contribuiu para que essa percepção aumentasse, pois sua produção literária até certo ponto foi quase como tratada como um evento de alguém bem-sucedido que tinha tempo de sobra pra fazer sua graça em outra área das artes. Visto que seu primeiro livro foi publicado em 1974.


Fazenda Modelo (1974)




Em Fazenda Modelo, "novela pecuária": Chico Buarque tece uma alegoria sobre a sociedade dos homens - falando, no entanto, exclusivamente de bois e vacas.Trata-se de uma parábola sobre o poder, a respeito das formas de dominação social sobre o rebanho humano. E a forma de dominação mais radical é usurpar do indivíduo - sempre em nome dos mais santos princípios - qualquer possibilidade de assumir seu próprio destino pessoal. A Fazenda modelo é uma comunidade bovina que começa a crescer e que se vê - através da liderança mansa do boi Juvenal, o bom - submetida a um processo radical de transformação, de "progresso": em que tudo que era natural é considerado "atrasado" ou "pecado" e passa a ser cientificamente regulado. Destroem-se todas as formas de autorregulação do indivíduo, desde as alimentares até as sexuais: a procriação na Fazenda Modelo estava garantida através da inseminação artificial - do banco de espermas do touro Abá, o Grande Reprodutor. Juvenal abolira o relacionamento sexual do rebanho, totalmente voltado à reprodução. E o filho de Abá, Lubino, deveria suceder o pai nessa gloriosa tarefa de "rapador" da Fazenda Modelo.

Depois disso, Chico foi quase completamente esquecido como escritor, a não ser por fãs mais mordazes. Certamente na cabeça do Chico passava algo como uma inquietação de ser ou não ser. Ele sabia que a luz que ofuscaria tudo aquilo que escrevesse seria enorme, luz essa vindo de seu patamar como compositor. Ele sabia que era muito trabalho e talvez só o tomasse tempo e que ninguém ligaria a não ser que fosse bom. Ele também sabia que as maiorias das pessoas seriam cautelosas e teriam um pé atrás (ainda hoje é assim). Mas então ele se esforçou para voltar, pois certamente tem em si a necessidade de contar uma história mais longa que em suas canções não é possível. Em 1991 publicou Estorvo. Eu particularmente não gosto, mas parte da crítica aceitou bem. Mas com certeza, nessa época, Chico não era considerado promissor como escritor. Todos tinha a impressão que seria assim, livros com longos hiatos uns dos outros e que talvez até o fim da vida lançasse mais dois.


Estorvo (1991)



Para produzir seu primeiro romance, Chico Buarque paralisou a carreira musical durante 13 meses (entre maio de 1990 e junho de 1991). Pela primeira vez utilizou-se de um micro-computador (presenteado por sua então esposa Marieta Severo) para escreveu 141 páginas divididas em 11 capítulos. O livro quase não foi lançado devido ao editor Luiz Schwarcz perder o disquete com o texto original. Por sorte Chico havia entregado uma cópia impressa do trabalho, que serviu de base para a produção do livro. Seu lançamento foi marcado para a V Feira Internacional do Livro no Rio Centro em agosto de 1991. A tiragem inicial, estabelecida em 30 mil cópias, esgotou-se dois dias após o lançamento. Ao mesmo tempo, 3 editoras estrangeiras adquiriram os direitos de lançamento do livro.

Mas Chico pareceu decidido a continuar a escrever e trouxe algo melhor com Benjamin. Entretanto se analisarmos até aí não sei se tirássemos o nome de peso de Chico os livros teriam 20% das vendas. E quase certo que Estorvo não levaria o Prêmio Jabuti tendo o nome de um autor desconhecido na capa. Portanto até Benjamin a qualidade literária de Chico Buarque é morna, ele é um bom escritor, mas ainda está muito, mas muito longe de sua estatura como compositor (digo em qualidade artística e não fama.)


Benjamim (1995)