Paulo Coelho. Por que esse carioca conseguiu ganhar R$ 2,5 bilhões com seus livros.

Atualizado: Set 20



Você pode até não gostar da literatura de Paulo Coelho, mas como participante do mercado editorial você deve ter curiosidade e tentar entender o fenômeno. Ser escritor hoje não é mais apenas escrever e esperar, entender o mercado é fundamental. E entender como um carioca chegou a um patrimônio tal com seus livros é importante.


Entender um pouco as marcas incríveis alcançadas: 83 idiomas em 173 países e mais de 220 milhões de livros vendidos. Diante desses números virar a cara e dizer coisas sem sentido como: “Lixo vende.” Mostra no mínimo um senso de infantilidade e pouco compromisso no mercado editorial. Pois há excesso de lixo publicado e muitos não vendem nem 100 exemplares. É difícil imaginar como as pessoas contra Paulo Coelho dizem incoerências como essa. Como se o livro dele fosse feito por qualquer um e pudesse assim ficar multimilionário do dia pra noite. Quem não gostaria disso...


No que tange sobre a qualidade literária, Paulo Coelho é algo diferente do que consideramos Alta Literatura. Muito diferente. Eu não sou leitor de Paulo Coelho, não gosto de sua literatura, pois meu gosto literário é mais de temas humanos e simbólicos mais aprofundados, e sobretudo a habilidade narrativa, a ambientação e a criação hábil de personagens críveis e repletos de imperfeições, além da poesia, do ritmo, da ironia e da inteligência que o texto nos desperta. Por isso sou leitor de Balzac, gosto de estilo e entrelinhas. Uma estrutura repleta de vitalidade narrativa. Por isso sou leitor de Tosltoi. Mas quanto ao que admiro em Paulo Coelho é sobretudo do ponto de vista do mercado de livros num todo. O potencial que ele alcançou, sobretudo oriundo de um mercado menos expressivo como o nosso. Um carioca que chega a essa incrível marca de 220 milhões de livros é sim muita coisa e merece o devido respeito.

A habilidade de Paulo Coelho é levar o simples com certo mistério e uma marca de transcendência espiritual. Ele faz isso muito bem destinando sua narrativa a leitores menos sofisticados na arte da leitura e na exigência de estilo. Paulo Coelho escreveu para as massas, não escreve para quem conhece de literatura, mas a diferença é que muitos tentam escrever para massas e não conseguem, com a mesma dificuldade de quem tenta escrever como os Mestres citados acima, Senhores da narrativa e passam ainda mais longe.

Entre a exuberância tropical de certas histórias de Jorge Amado e a escatologia urbana do romance de Paulo Lins por sua versão cinematográfica, Cidade de Deus, Paulo Coelho tornou-se o autor brasileiro mais conhecido no exterior, produzindo narrativas desterritorializadas em um mundo que se tornava cada vez mais global.

Sua receita sempre foi simples e eficaz: basear-se em histórias de grande alcance, sem perder tempo com grandes malabarismos de linguagem ou profundidade psicológica, dando ao leitor lições facilmente decodificáveis para sua vida pessoal em uma linguagem acessível.

O que há de legítimo em Paulo Coelho quando vemos os críticos dele é que ele nunca se propôs a ser um grande escritor, ou alguém com estilo. Sabendo de suas limitações pesquisou a fundo temas comuns das almas mais humildes e transmitiu isso numa mescla de fábula e autoajuda.

Além disso conheço pessoas que começaram a ler com Paulo Coelho e hoje evoluíram como leitores e leem autores com mais poder narrativo. Mas há outros que ficam apenas nesses livros como de Paulo Coelho - são leitores que não evoluem como leitores de linguagem, de estilo e de significados mais subliminares. Esses livros, como os de Paulo Coelho ensinam coisas importantes, são mensagens quase óbvias mas que parecem ofuscadas nas pessoas e sim podem ajudar a pessoa que as lê. Agora o que espanta é por que outras autoajudas não chegam a isso? Bem são muitos os elementos, mas é notório que Paulo Coelho pegou um momento de espiritualidade, ou um boom disso, e também havia certa inocência comparado a hoje.

Então estou simplesmente dizendo que Paulo Coelho foi oportunista? É claro que de certo modo sim. Ele certamente criou estratégias e fez muitos cálculos, trabalhou muito além do livro. Não é um artista como Balzac, como Fernando Pessoa, é um escritor comercial que uniu algumas coisas numa forma simples de narrativa ficcional com uma enorme quantidade de autoajuda as vezes camuflada. E também criou um misticismo em torno de si e as pessoas adoravam isso, pois ele escreve sim para um certo grau de inocência. E podemos dizer que se tirássemos o lado estrategista de Paulo Coelho ninguém o conheceria. E esse lado estratégico é tudo que você tem que estudar e buscar entender hoje como quem quer publicar e vender livros.

O professor e crítico Idelber Avelar definiu bem o fenômeno Paulo Coelho ao escrever que ele dá nova roupagem ao gênero da parábola na literatura comercial moderna. “De larga tradição, dos Evangelhos à contística didática medieval, a parábola não se reduz à autoajuda porque nela opera o discurso ficcional, desestabilizando a aparente univocidade do ensinamento. Daí o fascínio de tantos leitores: simples e compreensível, a parábola preserva uma dose de mistério", escreveu Avelar.


Está aí também a pedra de tropeço para a compreensão da obra de Paulo Coelho: nem totalmente autoajuda nem completamente literatura, seus livros pairam num limbo crítico, entre as listas de mais vendidos e o chá na Academia Brasileira de Letras.

Jorge Amado foi o autor brasileiro mais traduzido no mundo entre as décadas de 1940 e 1980, começando a ser superado tanto pelo declínio do interesse na Europa pela América Latina como pelo sucesso comercial de Paulo Coelho, com sua escrita que poderia ser tanto brasileira quanto americana ou europeia.

"Aos poucos, as tiragens de Jorge Amado foram baixando, sendo ultrapassadas pelas de outro autor brasileiro, Paulo Coelho, que porém não é visto e lido como brasileiro e que não contribui para a imagem do Brasil no mundo. Ele é um autor globalizado, que, pelo que escreve, poderia ser europeu, americano, árabe", escreveu Zilly.

O professor, crítico literário e tradutor Oliver Precht, que verteu recentemente para o alemão textos complexos de brasileiros como Oswald de Andrade e Eduardo Viveiros de Castro, comentou que a repercussão de Paulo Coelho na Alemanha se daria porque seus livros expressam a nostalgia difusa por uma existência que tenha significado individual, em uma busca romântica por verdades e destinos pessoais e intransferíveis.


Como vê você pode ver Paulo Coelho com outros olhos, e entender que por trás de um fenômeno sempre há algo importante a ser observado. Mesmo que você não goste, como eu não gosto dos livros, mas você pode aprender mais para o seu livro ser bem-sucedido no mercado com Paulo Coelho que com Tosltoi. Pois Paulo Coelho sempre soube que não seria Tolstoi, assim como eu e você nunca seremos Tolstoi. E conhecedor de sua limitação Paulo Coelho ainda criou algo para se tornar bilionário num dos mercados mais difíceis do mundo que é o mercado editorial. Um carioca, um brasileiro, o segundo autor mais rico do mundo!



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